sexta-feira, 4 de março de 2016


Um Capoeirista da Vanguarda Brasileira

Julliana Ribeiro, jornalista e capoeirista

Aos 54 anos, Ligeirinho já tentou se esquivar da capoeira, mas não conseguiu. Segundo ele, a capoeira é seu lugar e ela corre pelo seu sangue



Nascido no Piauí e criado em Brasília, Gilson Oliveira do Nascimento, mais conhecido como Ligeirinho, faz parte da vanguarda capoerística na Capital. Em 1970, teve seu primeiro contato com a capoeira, aos 8 anos de idade, quando seu irmão mais velho decidiu levá-lo para fazer parte de um grupo. O objetivo era aprender a se defender, pois  não aguentava mais ver o menino apanhando na escola.
Foi no Grupo de Capoeira Irmãos Unidos de Angola que Gilson aprendeu a arte com o Mestre Mão de Ouro. Os treinos eram realizados no terreiro do quintal do Mestre, em Sobradinho-DF. Ele revela que o Mestre, observando seu jogo naquele momento, olhou e disse: “Esse cabra é ligeiro. Você vai se chamar Ligeirinho”. Ele explica que, no seu grupo, todos tinham apelido: “O meu foi Ligeirinho por que eu jogava muito rápido e também falo muito rápido”, lembra.
Aprendeu os primeiros golpes como a meia-lua de frente, rabo de arraia e martelo. Em pouco tempo, vieram os floreios, tornando–se assim o aluno mais aplicado do grupo.  Naquele terreiro, Ligeirinho passava as tardes brincando e aprendendo a jogar. Emocionado ao lembrar da sua trajetória na capoeira e de Mão de Ouro ele conta que naquela época as coisas eram diferentes, a capoeira era malvista. “Meu Mestre era muito exemplar e rígido, não gostava de briga nem na roda e nem na rua”, conta.
Com muita disciplina exigida pelo Mestre, o grupo seguia a linha da capoeira tradicional, idealizada por Mestre Pastinha. Existia uma peculiariedade na formação dos capoeiristas daquele grupo.  Mão de Ouro tinha um trabalho social brilhante, acolhia os jovens carentes e, além da capoeira, ensinava a garotada a fabricar seus próprios instrumentos e a tocá-los, claro.
 
 
Batizado do Ligeirinho, em 1970, aos oito anos de idade


Entre rabo de arraia e palhaço, Ligeirinho lembra do famoso “esquenta banha”: um jogo rápido. Era toda sexta-feira, quando a capoeiragem se reunia ao toque de São Bento Grande e a roda acontecia até altas horas.

O movimento que ele mais gostava de fazer era o palhaço, uma espécie de aú de costas. Seus golpes eram ligeiros e precisos. Sempre fazia jogos de exibição; as apresentações em escolas marcaram sua jornada na capoeira. Entusiasmado, ele recorda a galera aplaudindo de pé os golpes rodados, os floreios e o antigo tombo da ladeira.
 
Mas a vida é cheia de surpresas e, infelizmente, lhe deu uma rasteira com meia lua de compasso e finalizou com uma benção. Ligeirinho recebeu a notícia que Mestre Mão de Ouro havia falecido. Em 2007, o grupo Irmãos Unidos de Angola foi extinto.
 
Ligeirinho, deprimido com a notícia, decidiu largar a capoeira. Tinha perdido o gosto pela arte ancestral.  Vida que segue, ele casou e teve filhos. Foi então que, em 2011, trabalhando na UnB como pintor, escutou o toque de berimbau vindo de longe. Sentiu um arrepio, e aquela sensação que estava adormecida floresceu. Reviveu em seus pensamentos o Ligeirinho Capoerista que saltava e gingava. Naquele instante podia sentir em seu corpo a energia da ginga e a vibração da roda.
 
Chamado pelo toque de São Bento Pequeno, foi ao encontro daquele som que fez parte da sua vida. Muito emocionado, Ligeirinho ficou ali parado admirando a roda. Como foi ensinado sobre o respeito dentro da capoeira, foi logo se apresentando para o Mestre Luiz Renato.

Contou ao Mestre sobre sua história. Luiz Renato, sensibilizado e reconhecendo a carga capoeirística que aquele homem trazia na bagagem, convidou Ligeirinho para treinar no Grupo Beribazu. Naquele momento, sentiu-se muito acolhido e com as portas abertas para uma nova jornada, ou melhor, para continuar seu caminho na capoeira.
 
Hoje, aos 54 anos, Ligeirinho se diz muito satisfeito e feliz por ter retornado, apesar de algumas limitações por conta da idade. “A capoeira me faz bem, está no meu sangue. Mesmo alguns anos afastado, sempre pensava em jogar e às vezes treinava sozinho. Fico muito comovido quando escuto o berimbau. A capoeira nunca saiu de mim”.
 
Ligeirinho ensina que a capoeira tem que ter humildade, pois capoeirista sem humildade não é capoeirista. Tem que respeitar a roda, respeitar o Mestre, respeitar o próximo. Não brigar na rua. Capoeira sadia é desse jeito.

 
“Meu sentimento pelo Beribazu é que o Mestre Luiz Renato tem o mesmo jeito do meu antigo Mestre, o jeito de gingar e de ensinar. Por isso me sinto em casa”.

E conclui: “Vou jogar capoeira até quando eu morrer. Sigo os exemplos de Mestre Bimba e de  Mestre Pastinha”.
 
 

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