sábado, 29 de agosto de 2026

O Grupo Beribazu e o Barco de Teseu: identidade, permanência e transformação

Luiz Renato Vieira
Mestre de capoeira formado pelo Mestre Zulu em 1984

Ainda muito jovem, nas primeiras aulas de Filosofia que tive, um professor escolheu apresentar à turma alguns dos grandes paradoxos da tradição filosófica. Foi uma estratégia pedagógica especialmente feliz. Em vez de começar por definições, escolas de pensamento ou longas sequências de autores, ele nos colocou diante de problemas aparentemente simples, mas capazes de desestabilizar nossas certezas. Para nós, ainda muito jovens, aquela abordagem despertava curiosidade e um interesse genuíno pelo ato de pensar. Os paradoxos têm justamente essa força. Eles testam os limites da lógica, colocam em dúvida aquilo que parece evidente e nos convidam a enfrentar as opiniões comuns, a doxa, estimulando o pensamento crítico e a busca de novas formas de compreender a realidade.

Entre todos aqueles paradoxos, lembro-me de que um me pareceu especialmente instigante: o paradoxo do Barco de Teseu. A história, em uma de suas versões mais conhecidas, conta que o navio utilizado pelo herói grego Teseu foi preservado durante muitos anos pelos atenienses. À medida que suas tábuas envelheciam ou apodreciam, eram substituídas por novas. Com o passar do tempo, todas as partes originais acabaram sendo trocadas. Surgia então a pergunta: aquele ainda era o mesmo Barco de Teseu? Se nenhuma das tábuas originais permanecia, em que consistia sua identidade? O problema se tornava ainda mais complexo quando se imaginava que alguém pudesse guardar todas as antigas peças retiradas e, posteriormente, reconstruir com elas outro navio. Qual dos dois seria, afinal, o verdadeiro Barco de Teseu: aquele que continuou navegando, embora progressivamente renovado, ou aquele reconstruído com seus componentes originais?

Por trás de uma narrativa aparentemente simples encontra-se uma questão filosófica profunda: o que faz com que alguma coisa continue sendo aquilo que é, mesmo depois de atravessar inúmeras transformações? Foi justamente essa antiga pergunta que me veio novamente à memória ao refletir sobre a trajetória do Grupo de Capoeira Beribazu.

Fundado em 1972 por Mestre Zulu, o Grupo Beribazu atravessou mais de cinco décadas de transformações profundas. Mudaram os contextos sociais e políticos, as formas de ensinar, os modos de organização, as linguagens, as relações institucionais e as maneiras de produzir, transmitir e compartilhar conhecimentos sobre a capoeira. Novas gerações se formaram, novas lideranças assumiram responsabilidades e o grupo passou a estar presente em diferentes cidades, regiões e países, inserido em realidades culturais muito distintas daquela em que nasceu.

É importante, entretanto, estabelecer aqui um cuidado com a metáfora. Ao aproximar a história do Grupo Beribazu do Barco de Teseu, não pretendo sugerir que as pessoas sejam equivalentes às tábuas de um barco, como se fossem peças intercambiáveis ou substituíveis. Muito pelo contrário. São justamente as pessoas, com suas experiências, afetos, conhecimentos, conflitos, contribuições e trajetórias, que dão vida a qualquer coletivo. Quando penso nas “tábuas” que foram sendo modificadas ao longo do tempo, refiro-me sobretudo às formas de organização, às práticas pedagógicas, aos papéis institucionais, às linguagens, aos métodos e às maneiras pelas quais o grupo se apresenta e atua em diferentes contextos históricos. As pessoas não são peças do grupo. São sujeitos de sua história.

Ainda assim, a imagem do barco continua sendo extremamente fértil para pensar uma organização que atravessa gerações. Nenhum coletivo que permaneça vivo ao longo do tempo pode ser completamente imutável. Um grupo incapaz de transformar suas práticas corre o risco de preservar durante algum tempo uma forma externa, mas perder a capacidade de dialogar com a sociedade em que vive. Por outro lado, um grupo que transforma tudo sem refletir sobre seus fundamentos pode conservar o mesmo nome e os mesmos símbolos enquanto se distancia progressivamente daquilo que lhe conferia sentido. É justamente nessa tensão entre permanência e transformação que o paradoxo do Barco de Teseu se torna uma pergunta muito concreta para nós: depois de 54 anos, continuamos sendo o mesmo Grupo Beribazu?

A resposta, evidentemente, não pode estar apenas nas pessoas que participaram de sua fundação ou viveram suas primeiras décadas. Se a identidade de um grupo dependesse da presença permanente de seus integrantes originais, ela desapareceria inevitavelmente com o passar das gerações. Tampouco pode estar apenas nas técnicas, nos movimentos, nos rituais ou nas formas externas de organização, pois todos esses elementos também são historicamente construídos e estão sujeitos a mudanças. Talvez a identidade de um coletivo esteja sobretudo naquilo que orienta suas escolhas, nos valores que atravessam diferentes gerações e nos princípios que, embora assumindo novas formas, continuam funcionando como referências.

Quando penso no Grupo Beribazu, acredito que uma parte importante dessa identidade se encontra em uma maneira particular de compreender a capoeira: não apenas como prática corporal, luta, jogo ou manifestação cultural, mas também como instrumento de educação, reflexão, produção de conhecimento e transformação social. Desde relativamente cedo na história do grupo, consolidou-se uma forte relação com o estudo e com a pesquisa sobre a capoeira. A partir da década de 1980, essa característica tornou-se particularmente evidente. O Grupo Beribazu passou a reunir capoeiristas que também se dedicavam intensamente à universidade, à investigação acadêmica e à produção intelectual. Teses, dissertações, livros, artigos e outras publicações fizeram com que o grupo, mesmo sem estar entre as maiores organizações de capoeira do mundo em número de integrantes, alcançasse uma posição muito particular no campo da produção de conhecimento sobre a capoeira.

Poucos coletivos conseguiram reunir, ao longo de tantas décadas, tantas pessoas dispostas a tomar sua própria prática como objeto de reflexão sistemática. Esse talvez seja um dos traços mais marcantes de nossa identidade: o desejo de compreender a capoeira para além da roda, sem jamais diminuir a importância da própria roda; o esforço de investigar suas possibilidades pedagógicas, culturais e sociais; e a convicção de que a capoeira possui uma contribuição muito maior a oferecer à sociedade do que aquela que, por vezes, lhe é reconhecida.

Nesse sentido, permanece especialmente importante o sonho, tantas vezes presente no pensamento e nas propostas de Mestre Zulu, de ver a capoeira ocupando um espaço significativo nas escolas e sendo compreendida não como mera atividade acessória, mas como uma manifestação cultural de enorme potencial educativo. Permanece também a ideia de que o Grupo Beribazu poderia ser um grande celeiro de estudos e pesquisas sobre aquilo que a capoeira pode fazer de positivo para a sociedade. Quando olhamos para a produção intelectual construída ao longo das últimas décadas por integrantes do grupo, percebemos que esse projeto não ficou apenas no campo das intenções. Ele produziu resultados concretos e ajudou a constituir uma tradição própria de reflexão sobre a capoeira.

Seria, porém, uma compreensão incompleta de nossa história imaginar o Grupo Beribazu predominantemente como um coletivo de intelectuais ou pesquisadores. O estudo nunca esteve dissociado da vivência intensa da capoeira. Ao longo de sua trajetória, o grupo formou e reuniu grandes capoeiristas, muitos deles reconhecidos nacional e internacionalmente pela qualidade de seu jogo, por sua atuação como professores, mestres e formadores e por sua contribuição à própria arte da capoeira. Essa dimensão esteve presente desde os primeiros tempos. Nos Jogos Escolares Brasileiros, por exemplo, os capoeiristas levados por Mestre Zulu alcançaram grande destaque, demonstrando na prática a qualidade do trabalho desenvolvido e a força de uma proposta pedagógica que articulava formação, disciplina, conhecimento e desempenho. A Grande Roda Brasileira de Capoeira, organizada pelo próprio Mestre Zulu, constitui outro exemplo dessa capacidade de colocar em diálogo reflexão, organização e vivência concreta da capoeira. Esses episódios ajudam a lembrar algo essencial: o Grupo Beribazu não apenas pensa sobre a capoeira. Ele joga, ensina, canta, toca, compete, pesquisa, experimenta e vive a capoeira em toda a sua riqueza e intensidade. Talvez uma de suas características mais interessantes esteja justamente nessa recusa em separar artificialmente o pensamento da prática, como se refletir sobre a capoeira pudesse ser uma atividade independente de experimentá-la plenamente no corpo, na roda e nas relações que ela produz.

A questão que se coloca hoje, portanto, não é simplesmente se mudamos. É evidente que mudamos, e continuaremos mudando. A questão mais importante é saber se conseguimos identificar aquilo que precisa permanecer e aquilo que deve ser transformado. Essa talvez seja uma das perguntas centrais para o Grupo Beribazu contemporâneo. Não se trata de escolher entre tradição e mudança, porque essa oposição é, em grande medida, falsa. Toda tradição que permanece viva necessariamente se transforma. O verdadeiro desafio é compreender quais aspectos pertencem apenas às circunstâncias de determinado período histórico e quais expressam princípios mais profundos de nossa identidade.

A sociedade de hoje é profundamente diferente daquela de 1972. A capoeira mudou, as relações sociais mudaram, as formas de autoridade se transformaram e os debates sobre educação, gênero, raça, diversidade, ética, participação social e produção cultural adquiriram novas dimensões. Seria impossível, e provavelmente indesejável, simplesmente reproduzir em 2026 todas as formas de organização e todas as práticas existentes no momento de fundação do grupo. Entretanto, adaptar-se aos novos tempos não significa abandonar os princípios que deram sentido à sua criação. Talvez a fidelidade mais profunda a uma tradição não esteja em repetir literalmente aquilo que os fundadores fizeram, mas em compreender suficientemente bem os seus propósitos para conseguir recriá-los diante de novas circunstâncias.

É por isso que considero fundamental que o debate sobre identidade continue presente no interior do Grupo Beribazu. Precisamos refletir continuamente sobre aquilo que nos constitui. Precisamos perguntar não apenas de onde viemos, mas também por que determinadas ideias foram importantes em nossa origem e se elas ainda são capazes de orientar nossas escolhas. Precisamos reconhecer que algumas práticas podem e devem ser revistas, sem que isso represente desrespeito à nossa história. Ao contrário, uma tradição madura não é aquela que proíbe a mudança, mas aquela que consegue distinguir transformação de ruptura e atualização de abandono.

Recentemente, em Vitória, tivemos uma oportunidade especialmente significativa de observar esse processo. O evento comemorativo dos 54 anos do Grupo de Capoeira Beribazu reuniu capoeiristas vindos de diferentes lugares e países e foi marcado por uma organização exemplar. Conduzido pelo Contramestre Eleandro e pela Professora Ludmila, sob a supervisão dos Mestres Jorlan e Fábio, o encontro demonstrou cuidado, competência e, sobretudo, sensibilidade na escolha de sua temática central: uma homenagem a Mestre Zulu, fundador do grupo.

Essa escolha possui um significado que ultrapassa a homenagem individual. Celebrar Mestre Zulu significa revisitar nossas origens e perguntar novamente por que o Grupo Beribazu foi criado, quais eram os princípios que orientavam aquele projeto e o que eles podem nos dizer nos dias atuais. A memória, nesse sentido, não deve funcionar apenas como contemplação nostálgica de um passado idealizado. Ela pode ser também um instrumento de reflexão sobre o presente e de construção do futuro.

Foi justamente essa sensação que o encontro de Vitória me proporcionou. Vi diferentes gerações reunidas, capoeiristas formados em cidades, países e circunstâncias muito distintas, mas capazes de compartilhar referências, histórias, valores e um sentimento de pertencimento comum. Vi pessoas que não estavam presentes quando o grupo nasceu assumindo hoje responsabilidades fundamentais por sua continuidade. Vi, ao mesmo tempo, respeito pela história e disposição para seguir adiante.

O contexto é outro, as formas de organização se transformaram e as gerações são diferentes. Também os desafios que encontramos hoje são diferentes daqueles enfrentados por Mestre Zulu e pelos primeiros integrantes do grupo. No entanto, algo permanece claramente reconhecível. Talvez seja justamente nesse ponto que se encontre a identidade que procuramos compreender.

O paradoxo do Barco de Teseu não possui uma solução consensual, e talvez sua maior riqueza esteja exatamente nisso. Ele nos obriga a pensar a identidade não como algo simples, imóvel ou evidente, mas como uma relação complexa entre continuidade e transformação. O mesmo acontece quando olhamos para o Grupo Beribazu. Seria ingênuo afirmar que somos exatamente o mesmo grupo de 1972, ou da década de 1980, ou dos anos 1990. Não somos, e não poderíamos ser. Cinquenta e quatro anos de história necessariamente acrescentam experiências, produzem novas interpretações, revelam erros e acertos, transformam relações e ampliam horizontes. Mas também seria profundamente equivocado concluir que essas mudanças apagaram aquilo que nos conecta à história iniciada por Mestre Zulu.

Essa continuidade talvez esteja menos na preservação literal das formas e mais na permanência de um projeto. Ela aparece quando continuamos enxergando a capoeira como possibilidade de educação, cultura, conhecimento e transformação social; quando valorizamos o estudo e a pesquisa; quando acreditamos na potência pedagógica da capoeira; quando reconhecemos, ao mesmo tempo, a importância de jogar bem, de ensinar bem, de cantar, tocar, formar capoeiristas e viver intensamente a roda; quando compreendemos a capoeira como espaço simultaneamente de jogo, luta, memória, música, convivência, aprendizagem e formação humana; e quando mantemos viva a esperança de que ela possa contribuir para uma sociedade melhor.

Por isso, penso que a pergunta sobre a identidade do Grupo Beribazu jamais deveria ser definitivamente encerrada. Devemos continuar nos perguntando se estamos preservando aquilo que realmente importa, se temos coragem para transformar aquilo que precisa ser transformado, se nossas mudanças nos aproximam dos princípios que orientaram a criação do grupo ou nos afastam deles e, sobretudo, se temos refletido suficientemente sobre o Grupo Beribazu que recebemos e sobre aquele que desejamos entregar às próximas gerações.

Talvez essas perguntas sejam mais importantes do que qualquer resposta definitiva. Um barco que atravessa décadas precisa continuamente ajustar suas velas, reparar sua estrutura e aprender a enfrentar mares que seus primeiros navegantes não poderiam sequer imaginar. O essencial é que, em meio a essas transformações, não se perca a consciência do sentido da viagem.

O encontro realizado em Vitória me deixou particularmente otimista. Depois de 54 anos de história, percebi naquele evento sinais claros de continuidade, renovação, competência e respeito pela trajetória do grupo. A homenagem ao Mestre Zulu não me pareceu apenas uma celebração do passado, mas uma oportunidade de reafirmar princípios e pensar sobre o futuro.

Saí de Vitória com a sensação de que o nosso barco continua navegando. Ele não é exatamente o mesmo barco que deixou o porto em 1972, porque nenhuma trajetória de mais de meio século poderia atravessar tantos contextos sem se transformar. Mas reconheço nele o sentido daquela viagem iniciada por Mestre Zulu: a confiança na capoeira como instrumento de educação e formação humana, o compromisso com o conhecimento, a valorização do jogo e da experiência concreta da capoeira, a curiosidade intelectual, a disposição para pesquisar, ensinar e aprender e o desejo de ampliar aquilo que a capoeira pode oferecer à sociedade.

Talvez seja essa a melhor forma de responder ao paradoxo quando o trazemos para a nossa própria história. Não precisamos escolher entre permanecer iguais e mudar completamente. Precisamos compreender quem somos para saber como mudar sem perder o sentido de nossa trajetória.

Que continuemos, portanto, capazes de olhar para trás sem permanecer presos ao passado, de transformar aquilo que os novos tempos exigem sem abandonar nossos princípios e de transmitir às próximas gerações não apenas um nome, símbolos ou tradições, mas sobretudo uma maneira de viver a capoeira que não separa pensamento e prática, estudo e roda, reflexão e experiência.

Se conseguirmos fazer isso, o Grupo Beribazu continuará navegando.

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