Luiz Renato Vieira
Mestre de capoeira formado pelo Mestre Zulu em 1984
Ainda muito jovem, nas primeiras aulas de
Filosofia que tive, um professor escolheu apresentar à turma alguns dos grandes
paradoxos da tradição filosófica. Foi uma estratégia pedagógica especialmente
feliz. Em vez de começar por definições, escolas de pensamento ou longas
sequências de autores, ele nos colocou diante de problemas aparentemente
simples, mas capazes de desestabilizar nossas certezas. Para nós, ainda muito
jovens, aquela abordagem despertava curiosidade e um interesse genuíno pelo ato
de pensar. Os paradoxos têm justamente essa força. Eles testam os limites da
lógica, colocam em dúvida aquilo que parece evidente e nos convidam a enfrentar
as opiniões comuns, a doxa, estimulando o pensamento crítico e a busca
de novas formas de compreender a realidade.
Entre todos aqueles paradoxos, lembro-me de
que um me pareceu especialmente instigante: o paradoxo do Barco de Teseu. A
história, em uma de suas versões mais conhecidas, conta que o navio utilizado
pelo herói grego Teseu foi preservado durante muitos anos pelos atenienses. À
medida que suas tábuas envelheciam ou apodreciam, eram substituídas por novas.
Com o passar do tempo, todas as partes originais acabaram sendo trocadas.
Surgia então a pergunta: aquele ainda era o mesmo Barco de Teseu? Se nenhuma
das tábuas originais permanecia, em que consistia sua identidade? O problema se
tornava ainda mais complexo quando se imaginava que alguém pudesse guardar
todas as antigas peças retiradas e, posteriormente, reconstruir com elas outro
navio. Qual dos dois seria, afinal, o verdadeiro Barco de Teseu: aquele que
continuou navegando, embora progressivamente renovado, ou aquele reconstruído
com seus componentes originais?
Por trás de uma narrativa aparentemente
simples encontra-se uma questão filosófica profunda: o que faz com que alguma
coisa continue sendo aquilo que é, mesmo depois de atravessar inúmeras
transformações? Foi justamente essa antiga pergunta que me veio novamente à
memória ao refletir sobre a trajetória do Grupo de Capoeira Beribazu.
Fundado em 1972 por Mestre Zulu, o Grupo
Beribazu atravessou mais de cinco décadas de transformações profundas. Mudaram
os contextos sociais e políticos, as formas de ensinar, os modos de
organização, as linguagens, as relações institucionais e as maneiras de produzir,
transmitir e compartilhar conhecimentos sobre a capoeira. Novas gerações se
formaram, novas lideranças assumiram responsabilidades e o grupo passou a estar
presente em diferentes cidades, regiões e países, inserido em realidades
culturais muito distintas daquela em que nasceu.
É importante, entretanto, estabelecer aqui um
cuidado com a metáfora. Ao aproximar a história do Grupo Beribazu do Barco de
Teseu, não pretendo sugerir que as pessoas sejam equivalentes às tábuas de um
barco, como se fossem peças intercambiáveis ou substituíveis. Muito pelo
contrário. São justamente as pessoas, com suas experiências, afetos,
conhecimentos, conflitos, contribuições e trajetórias, que dão vida a qualquer
coletivo. Quando penso nas “tábuas” que foram sendo modificadas ao longo do
tempo, refiro-me sobretudo às formas de organização, às práticas pedagógicas,
aos papéis institucionais, às linguagens, aos métodos e às maneiras pelas quais
o grupo se apresenta e atua em diferentes contextos históricos. As pessoas não
são peças do grupo. São sujeitos de sua história.
Ainda assim, a imagem do barco continua sendo
extremamente fértil para pensar uma organização que atravessa gerações. Nenhum
coletivo que permaneça vivo ao longo do tempo pode ser completamente imutável.
Um grupo incapaz de transformar suas práticas corre o risco de preservar
durante algum tempo uma forma externa, mas perder a capacidade de dialogar com
a sociedade em que vive. Por outro lado, um grupo que transforma tudo sem
refletir sobre seus fundamentos pode conservar o mesmo nome e os mesmos
símbolos enquanto se distancia progressivamente daquilo que lhe conferia
sentido. É justamente nessa tensão entre permanência e transformação que o
paradoxo do Barco de Teseu se torna uma pergunta muito concreta para nós: depois
de 54 anos, continuamos sendo o mesmo Grupo Beribazu?
A resposta, evidentemente, não pode estar
apenas nas pessoas que participaram de sua fundação ou viveram suas primeiras
décadas. Se a identidade de um grupo dependesse da presença permanente de seus
integrantes originais, ela desapareceria inevitavelmente com o passar das
gerações. Tampouco pode estar apenas nas técnicas, nos movimentos, nos rituais
ou nas formas externas de organização, pois todos esses elementos também são
historicamente construídos e estão sujeitos a mudanças. Talvez a identidade de
um coletivo esteja sobretudo naquilo que orienta suas escolhas, nos valores que
atravessam diferentes gerações e nos princípios que, embora assumindo novas
formas, continuam funcionando como referências.
Quando penso no Grupo Beribazu, acredito que
uma parte importante dessa identidade se encontra em uma maneira particular de
compreender a capoeira: não apenas como prática corporal, luta, jogo ou
manifestação cultural, mas também como instrumento de educação, reflexão,
produção de conhecimento e transformação social. Desde relativamente cedo na
história do grupo, consolidou-se uma forte relação com o estudo e com a
pesquisa sobre a capoeira. A partir da década de 1980, essa característica
tornou-se particularmente evidente. O Grupo Beribazu passou a reunir
capoeiristas que também se dedicavam intensamente à universidade, à
investigação acadêmica e à produção intelectual. Teses, dissertações, livros,
artigos e outras publicações fizeram com que o grupo, mesmo sem estar entre as
maiores organizações de capoeira do mundo em número de integrantes, alcançasse
uma posição muito particular no campo da produção de conhecimento sobre a
capoeira.
Poucos coletivos conseguiram reunir, ao longo
de tantas décadas, tantas pessoas dispostas a tomar sua própria prática como
objeto de reflexão sistemática. Esse talvez seja um dos traços mais marcantes
de nossa identidade: o desejo de compreender a capoeira para além da roda, sem
jamais diminuir a importância da própria roda; o esforço de investigar suas
possibilidades pedagógicas, culturais e sociais; e a convicção de que a
capoeira possui uma contribuição muito maior a oferecer à sociedade do que
aquela que, por vezes, lhe é reconhecida.
Nesse sentido, permanece especialmente
importante o sonho, tantas vezes presente no pensamento e nas propostas de
Mestre Zulu, de ver a capoeira ocupando um espaço significativo nas escolas e
sendo compreendida não como mera atividade acessória, mas como uma manifestação
cultural de enorme potencial educativo. Permanece também a ideia de que o Grupo
Beribazu poderia ser um grande celeiro de estudos e pesquisas sobre aquilo que
a capoeira pode fazer de positivo para a sociedade. Quando olhamos para a
produção intelectual construída ao longo das últimas décadas por integrantes do
grupo, percebemos que esse projeto não ficou apenas no campo das intenções. Ele
produziu resultados concretos e ajudou a constituir uma tradição própria de
reflexão sobre a capoeira.
Seria, porém, uma compreensão incompleta de
nossa história imaginar o Grupo Beribazu predominantemente como um coletivo de
intelectuais ou pesquisadores. O estudo nunca esteve dissociado da vivência
intensa da capoeira. Ao longo de sua trajetória, o grupo formou e reuniu
grandes capoeiristas, muitos deles reconhecidos nacional e internacionalmente
pela qualidade de seu jogo, por sua atuação como professores, mestres e
formadores e por sua contribuição à própria arte da capoeira. Essa dimensão
esteve presente desde os primeiros tempos. Nos Jogos Escolares Brasileiros, por
exemplo, os capoeiristas levados por Mestre Zulu alcançaram grande destaque,
demonstrando na prática a qualidade do trabalho desenvolvido e a força de uma
proposta pedagógica que articulava formação, disciplina, conhecimento e
desempenho. A Grande Roda Brasileira de Capoeira, organizada pelo próprio
Mestre Zulu, constitui outro exemplo dessa capacidade de colocar em diálogo
reflexão, organização e vivência concreta da capoeira. Esses episódios ajudam a
lembrar algo essencial: o Grupo Beribazu não apenas pensa sobre a capoeira. Ele
joga, ensina, canta, toca, compete, pesquisa, experimenta e vive a capoeira em
toda a sua riqueza e intensidade. Talvez uma de suas características mais
interessantes esteja justamente nessa recusa em separar artificialmente o
pensamento da prática, como se refletir sobre a capoeira pudesse ser uma
atividade independente de experimentá-la plenamente no corpo, na roda e nas
relações que ela produz.
A questão que se coloca hoje, portanto, não é
simplesmente se mudamos. É evidente que mudamos, e continuaremos mudando. A
questão mais importante é saber se conseguimos identificar aquilo que precisa
permanecer e aquilo que deve ser transformado. Essa talvez seja uma das
perguntas centrais para o Grupo Beribazu contemporâneo. Não se trata de
escolher entre tradição e mudança, porque essa oposição é, em grande medida,
falsa. Toda tradição que permanece viva necessariamente se transforma. O
verdadeiro desafio é compreender quais aspectos pertencem apenas às circunstâncias
de determinado período histórico e quais expressam princípios mais profundos de
nossa identidade.
A sociedade de hoje é profundamente diferente
daquela de 1972. A capoeira mudou, as relações sociais mudaram, as formas de
autoridade se transformaram e os debates sobre educação, gênero, raça,
diversidade, ética, participação social e produção cultural adquiriram novas
dimensões. Seria impossível, e provavelmente indesejável, simplesmente
reproduzir em 2026 todas as formas de organização e todas as práticas
existentes no momento de fundação do grupo. Entretanto, adaptar-se aos novos
tempos não significa abandonar os princípios que deram sentido à sua criação.
Talvez a fidelidade mais profunda a uma tradição não esteja em repetir
literalmente aquilo que os fundadores fizeram, mas em compreender
suficientemente bem os seus propósitos para conseguir recriá-los diante de
novas circunstâncias.
É por isso que considero fundamental que o
debate sobre identidade continue presente no interior do Grupo Beribazu.
Precisamos refletir continuamente sobre aquilo que nos constitui. Precisamos
perguntar não apenas de onde viemos, mas também por que determinadas ideias
foram importantes em nossa origem e se elas ainda são capazes de orientar
nossas escolhas. Precisamos reconhecer que algumas práticas podem e devem ser
revistas, sem que isso represente desrespeito à nossa história. Ao contrário,
uma tradição madura não é aquela que proíbe a mudança, mas aquela que consegue
distinguir transformação de ruptura e atualização de abandono.
Recentemente, em Vitória, tivemos uma
oportunidade especialmente significativa de observar esse processo. O evento
comemorativo dos 54 anos do Grupo de Capoeira Beribazu reuniu capoeiristas
vindos de diferentes lugares e países e foi marcado por uma organização
exemplar. Conduzido pelo Contramestre Eleandro e pela Professora Ludmila, sob a
supervisão dos Mestres Jorlan e Fábio, o encontro demonstrou cuidado,
competência e, sobretudo, sensibilidade na escolha de sua temática central: uma
homenagem a Mestre Zulu, fundador do grupo.
Essa escolha possui um significado que
ultrapassa a homenagem individual. Celebrar Mestre Zulu significa revisitar
nossas origens e perguntar novamente por que o Grupo Beribazu foi criado, quais
eram os princípios que orientavam aquele projeto e o que eles podem nos dizer
nos dias atuais. A memória, nesse sentido, não deve funcionar apenas como
contemplação nostálgica de um passado idealizado. Ela pode ser também um
instrumento de reflexão sobre o presente e de construção do futuro.
Foi justamente essa sensação que o encontro de
Vitória me proporcionou. Vi diferentes gerações reunidas, capoeiristas formados
em cidades, países e circunstâncias muito distintas, mas capazes de
compartilhar referências, histórias, valores e um sentimento de pertencimento
comum. Vi pessoas que não estavam presentes quando o grupo nasceu assumindo
hoje responsabilidades fundamentais por sua continuidade. Vi, ao mesmo tempo,
respeito pela história e disposição para seguir adiante.
O contexto é outro, as formas de organização
se transformaram e as gerações são diferentes. Também os desafios que
encontramos hoje são diferentes daqueles enfrentados por Mestre Zulu e pelos
primeiros integrantes do grupo. No entanto, algo permanece claramente reconhecível.
Talvez seja justamente nesse ponto que se encontre a identidade que procuramos
compreender.
O paradoxo do Barco de Teseu não possui uma
solução consensual, e talvez sua maior riqueza esteja exatamente nisso. Ele nos
obriga a pensar a identidade não como algo simples, imóvel ou evidente, mas
como uma relação complexa entre continuidade e transformação. O mesmo acontece
quando olhamos para o Grupo Beribazu. Seria ingênuo afirmar que somos
exatamente o mesmo grupo de 1972, ou da década de 1980, ou dos anos 1990. Não somos, e não poderíamos ser. Cinquenta e
quatro anos de história necessariamente acrescentam experiências, produzem
novas interpretações, revelam erros e acertos, transformam relações e ampliam
horizontes. Mas também seria profundamente equivocado concluir que essas mudanças apagaram
aquilo que nos conecta à história iniciada por Mestre Zulu.
Essa continuidade talvez esteja menos na
preservação literal das formas e mais na permanência de um projeto. Ela aparece
quando continuamos enxergando a capoeira como possibilidade de educação,
cultura, conhecimento e transformação social; quando valorizamos o estudo e a
pesquisa; quando acreditamos na potência pedagógica da capoeira; quando
reconhecemos, ao mesmo tempo, a importância de jogar bem, de ensinar bem, de
cantar, tocar, formar capoeiristas e viver intensamente a roda; quando
compreendemos a capoeira como espaço simultaneamente de jogo, luta, memória,
música, convivência, aprendizagem e formação humana; e quando mantemos viva a
esperança de que ela possa contribuir para uma sociedade melhor.
Por isso, penso que a pergunta sobre a
identidade do Grupo Beribazu jamais deveria ser definitivamente encerrada.
Devemos continuar nos perguntando se estamos preservando aquilo que realmente
importa, se temos coragem para transformar aquilo que precisa ser transformado,
se nossas mudanças nos aproximam dos princípios que orientaram a criação do
grupo ou nos afastam deles e, sobretudo, se temos refletido suficientemente
sobre o Grupo Beribazu que recebemos e sobre aquele que desejamos entregar às
próximas gerações.
Talvez essas perguntas sejam mais importantes
do que qualquer resposta definitiva. Um barco que atravessa décadas precisa
continuamente ajustar suas velas, reparar sua estrutura e aprender a enfrentar
mares que seus primeiros navegantes não poderiam sequer imaginar. O essencial é
que, em meio a essas transformações, não se perca a consciência do sentido da
viagem.
O encontro realizado em Vitória me deixou
particularmente otimista. Depois de 54 anos de história, percebi naquele evento
sinais claros de continuidade, renovação, competência e respeito pela
trajetória do grupo. A homenagem ao Mestre Zulu não me pareceu apenas uma
celebração do passado, mas uma oportunidade de reafirmar princípios e pensar
sobre o futuro.
Saí de Vitória com a sensação de que o nosso
barco continua navegando. Ele não é exatamente o mesmo barco que deixou o porto
em 1972, porque nenhuma trajetória de mais de meio século poderia atravessar
tantos contextos sem se transformar. Mas reconheço nele o sentido daquela
viagem iniciada por Mestre Zulu: a confiança na capoeira como instrumento de
educação e formação humana, o compromisso com o conhecimento, a valorização do
jogo e da experiência concreta da capoeira, a curiosidade intelectual, a
disposição para pesquisar, ensinar e aprender e o desejo de ampliar aquilo que
a capoeira pode oferecer à sociedade.
Talvez seja essa a melhor forma de responder
ao paradoxo quando o trazemos para a nossa própria história. Não precisamos
escolher entre permanecer iguais e mudar completamente. Precisamos compreender
quem somos para saber como mudar sem perder o sentido de nossa trajetória.
Que continuemos, portanto, capazes de olhar
para trás sem permanecer presos ao passado, de transformar aquilo que os novos
tempos exigem sem abandonar nossos princípios e de transmitir às próximas
gerações não apenas um nome, símbolos ou tradições, mas sobretudo uma maneira
de viver a capoeira que não separa pensamento e prática, estudo e roda,
reflexão e experiência.
Se conseguirmos fazer isso, o Grupo Beribazu
continuará navegando.
Nenhum comentário:
Postar um comentário