terça-feira, 4 de agosto de 2026

 O corpo na contemporaneidade:
memória, movimento e resistência

Luiz Renato Vieira
Sociólogo e Mestre de Capoeira

Num tempo em que o corpo é frequentemente reduzido à aparência, ao desempenho ou à saúde física, é importante lembrar que ele também é portador de cultura e de história. As ciências sociais perceberam há bastante tempo que o corpo e o movimento são fontes fundamentais para a compreensão de uma sociedade. O antropólogo francês Marcel Mauss foi pioneiro ao mostrar, em As técnicas do corpo, texto publicado originalmente em 1934, que até mesmo os gestos mais simples e cotidianos são aprendidos culturalmente.

O corpo inscreve, arquiva e reproduz histórias, memórias, valores e relações de poder. Ao mesmo tempo, guarda marcas de luta, resistência e reinvenção. Ele é um dos primeiros lugares em que construímos e expressamos nossa identidade: nele se inscrevem nossa ancestralidade, nossas experiências e os vínculos que estabelecemos com uma comunidade. Para muitas pessoas, o movimento se torna literalmente um fundamento de quem são, pois é por meio dele que reconhecem a si mesmas e encontram pertencimento aos coletivos e às comunidades dos quais participam.

É nesse sentido que a capoeira, reconhecida como patrimônio cultural imaterial, representa muito mais do que uma forma de exercício. Ela constitui uma maneira viva de transmitir experiências, identidades e modos de compreender o mundo. A capoeira é, sem dúvida, esporte, luta, jogo e entretenimento, e não há nada de errado em valorizar essas dimensões. O problema surge quando ela é reduzida a apenas uma delas. Em sua riqueza simbólica e em sua complexidade de linguagens, a capoeira forma um verdadeiro complexo cultural que, sempre que possível, deve ser valorizado e promovido em sua integralidade.

De origem afro-brasileira e profundamente ligada às culturas de matriz africana, ela transmite memória, valores, disciplina, solidariedade e respeito. Quando colocada a serviço da cidadania, revela uma grande potência de pertencimento, convivência e transformação social. Em todo o país, encontramos projetos sociais que, entre diferentes modalidades de esporte e cultura, empregam a capoeira como instrumento de promoção da saúde, fortalecimento comunitário, desenvolvimento cultural e construção da cidadania.

Essa potência decorre, em grande medida, do fato de que o movimento é uma linguagem. A dança, a capoeira e outras práticas corporais comunicam emoções, memórias e experiências que a fala nem sempre consegue alcançar. Movimento é vida, e a capoeira amplia essa linguagem por meio do ritual, da história, da resistência e da musicalidade.

O mundo contemporâneo, entretanto, frequentemente silencia os corpos. Esse silenciamento não ocorre apenas pela inação e pelo sedentarismo, mas também pelos movimentos repetitivos e pela imposição de padrões que não deveriam servir indistintamente a todas as pessoas. Poderíamos falar, de maneira provocativa, em uma espécie de “silenciamento ativo”, ou mesmo hiperativo, fazendo referência a outras questões de saúde atuais e relevantes. Estamos falando de corpos que se movimentam, mas que nem sempre encontram espaço para se expressar, criar ou produzir sentidos próprios.

A racionalização do corpo na sociedade contemporânea impõe padrões de eficiência, produtividade e aparência, transformando-o em instrumento a ser treinado, medido e controlado. Quando o movimento é tratado apenas como exercício, desempenho ou espetáculo, perde-se grande parte de sua dimensão humana e cultural. Tendem a desaparecer a memória, a criatividade, a ancestralidade e os sentidos coletivos inscritos nos gestos.

Na capoeira, o movimento não pode ser separado da música, do ritual, da história, da resistência e da convivência. Reduzi-la à performance física significa silenciar justamente aquilo que lhe confere identidade e profundidade cultural. Cada gesto se conecta a uma memória coletiva, à musicalidade, ao ritual e à experiência compartilhada na roda. O capoeirista não apenas pratica a capoeira: ele passa a compreender e a se posicionar no mundo por meio dela. Trata-se, portanto, também de um processo epistêmico, isto é, de uma forma de produzir conhecimento e de compreender a realidade.

A própria trajetória histórica da capoeira demonstra como uma sociedade desigual, diante das formas de resistência cultural, utiliza mecanismos de poder que vão muito além da repressão direta. Inicialmente, esse controle, apoiado em um racismo que está presente em nossa própria formação como país, apresentou-se de maneira explícita, sobretudo por meio da criminalização da capoeira no Código Penal de 1890. Naquele contexto, ela foi associada à vadiagem e à marginalidade, tornando-se alvo de perseguição policial e de forte estigmatização social.

Ao longo do século XX, entretanto, ocorreu uma transição importante: passou-se da proibição aberta e violenta para formas mais sutis e sofisticadas de controle, marcadas pela institucionalização e pela apropriação cultural. Nesse novo contexto, a capoeira deixou de ser apenas reprimida e passou a ser incorporada e ressignificada por instituições, mercados e discursos oficiais, muitas vezes de maneira a esvaziar sua densidade histórica.

Esse processo tende a transformar uma manifestação cultural profundamente enraizada na ancestralidade negra, carregada de significados simbólicos, memórias de resistência e experiências coletivas de luta, em um conjunto genérico de práticas corporais, frequentemente desvinculadas de seu contexto social e político original. A sociologia permite perceber que controlar uma arte como a capoeira significa também disputar suas narrativas, seus sentidos, suas memórias e a autonomia dos grupos que historicamente a construíram.

Minha pesquisa Da vadiação à capoeira regional: uma interpretação da modernização cultural no Brasil, concluída em 1989 na Universidade de Brasília, procurou interpretar esse processo como parte da modernização cultural brasileira, seguindo a trilha aberta por Júlio Cezar de Tavares em A dança da guerra: arquivo-arma, de 1986. Esse trabalho representou meu primeiro passo em uma trajetória de pesquisas nesse campo.

Como capoeirista e acadêmico, ao longo desses quarenta anos, tenho procurado acompanhar esse processo e refletir sobre sua complexidade. Trata-se de uma experiência extremamente elucidativa das estratégias por meio das quais a sociedade brasileira mantém e reproduz a desigualdade, a exclusão e o racismo. A história da capoeira mostra que o reconhecimento institucional de uma manifestação cultural não elimina necessariamente as disputas em torno de seus significados. Em alguns casos, pode até criar novas formas de enquadramento, controle e apropriação.

Essa discussão se torna ainda mais relevante diante da condição atual do corpo. Do ponto de vista sociológico, afastá-lo do centro da experiência significa empobrecer nossas formas de convivência, percepção e pertencimento. Uma sociedade sedentária, acelerada e crescentemente mediada por telas tende a transformar o corpo em simples suporte da produtividade ou em objeto de aparência, avaliação e controle.

Nesse processo, perdemos o encontro presencial, o aprendizado pelo gesto, a sensibilidade ao outro e a construção coletiva dos ritmos da vida. Perdemos também parte da capacidade de perceber o espaço, de conviver com a diferença e de produzir experiências que não sejam inteiramente mediadas por dispositivos tecnológicos ou por exigências de desempenho. Devolver voz ao corpo significa permitir sua livre expressão e reconhecer que também pensamos, aprendemos e estabelecemos vínculos por meio do movimento.

Práticas como a capoeira recolocam o corpo em relação com a comunidade, a memória e o espaço público. A roda, em particular, cria uma forma de convivência na qual os participantes precisam observar o outro, escutar, responder, improvisar e respeitar ritmos coletivos. Ao recuperar o movimento, recuperamos também uma dimensão essencialmente humana da vida social.

A presença dessas práticas nos espaços públicos tem, portanto, uma importância que ultrapassa a atividade física ou o entretenimento. A dança, a capoeira, os esportes de rua e outras manifestações urbanas contribuem para a apropriação coletiva da cidade, para a criação de vínculos e para a construção de culturas locais. Elas transformam praças, ruas e equipamentos urbanos em espaços de encontro, expressão e pertencimento.

Nesse sentido, é fundamental destacar o papel das políticas públicas e a responsabilidade do poder público em apoiar e incentivar essas práticas. Mais do que simplesmente permitir sua existência, cabe ao Estado criar condições para que iniciativas culturais de base comunitária possam se fortalecer, expandir-se e manter-se de forma contínua. Isso envolve desde o reconhecimento institucional até o investimento em infraestrutura, editais, formação e proteção dos espaços públicos.

Políticas voltadas ao fortalecimento da cidadania devem considerar essas expressões como elementos centrais na construção das identidades locais e no estímulo ao sentimento de comunidade. Ao valorizar práticas como a capoeira e outras manifestações urbanas, o poder público contribui não apenas para a preservação cultural, mas também para a ampliação da participação social, da inclusão e do direito à cidade. Trata-se de compreender a cultura como um eixo estruturante da cidadania e da vida democrática.

Refletir sobre a condição do corpo na contemporaneidade é, portanto, refletir sobre a própria qualidade de nossa experiência social. Quando o corpo é reduzido à aparência, à produtividade ou à performance, empobrecem-se as possibilidades de criação, memória e encontro. Quando, ao contrário, reconhecemos o movimento como linguagem cultural, devolvemos aos gestos sua história e sua capacidade de produzir conhecimento, identidade e pertencimento.

A capoeira nos ensina precisamente isso: o corpo não é apenas uma estrutura biológica nem um instrumento destinado a executar tarefas. Ele é arquivo, linguagem e território de disputas. É também lugar de criação, resistência e reinvenção. Preservar essa dimensão significa reconhecer, no movimento, uma forma essencial de estar no mundo e de construir coletivamente a vida social.

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Este texto foi elaborado a partir de entrevista concedida à jornalista Gabriela Cidade, que elaborou matéria sobre o tema para o Jornal Correio Braziliense, publicada no dia 3 de agosto de 2027.

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