quinta-feira, 28 de julho de 2016

Inquietações de um Capoeirista-Sociólogo


Luiz Renato Vieira


Há trinta anos, em 1986, eu concluía a graduação em Sociologia, na UnB. Como trabalho de final de curso, preparei um estudo que foi minha primeira pesquisa mais sistemática sobre capoeira. Em uma época em que a capoeira era tema marginal nas universidades, mesmo no âmbito das ciências sociais, resolvi aprofundar-me em um dos assuntos que se tornaram mais importantes em minha trajetória acadêmica. A capoeira, quando muito, era estudada por seu exotismo e suas referências culturais de matriz afro-brasileira. 
Entretanto, como jovem sociólogo, que ingressou na Universidade ainda durante a Ditadura Militar e que militou no movimento estudantil, o tema que me inquietava era outro. Eu queria entender como se dava o processo por meio do qual a capoeira ultrapassava barreiras sócio-econômicas e passava a ser praticada por estratos sociais diferentes daqueles em que havia surgido e se desenvolvido. Quais eram os efeitos desse deslocamento, na perspectiva da antropologia e da sociologia da cultura? Estudos sobre isso, inclusive na ótica do "branqueamento" da capoeira, segundo alguns, existem aos montes hoje em dia. Mas, há trinta anos, poucos viam a luta brasileira por esse prisma. 
A escolha do tema resultava de uma inquietação intelectual, mas, evidentemente, também de uma angústia pessoal: uma sensação de estar "fora do lugar", um desconforto no campo cultural há tempos detectado pelos estudiosos clássicos da nossa formação, como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda e Raimundo Faoro. A leitura desses e outros clássicos e as instigantes reflexões provocadas por meus professores mexeram muito comigo. Foram centrais na minha formação, eu diria. Talvez seja mais correto dizer: foram essenciais na formação de um universo de dúvidas que nunca pude sanar e de curiosidades que nunca consegui satisfazer plenamente.
Por essas razões, e por acreditar que a história da capoeira pode nos dar muitas pistas para melhor compreender as características e as contradições que marcam a sociedade brasileira, decidi, em seguida, centrar meus estudos de mestrado em sociologia no tema das transformações nos códigos corporais, éticos e ritualísticos a partir da Capoeira Regional de Mestre Bimba. Afinal, só é possível compreender o Brasil a partir das importantes e complexas mudanças que ocorreram desde os primeiros passos da República e, principalmente, a partir do final da década de 1920, culminando com o movimento conhecido como Revolução de 1930. 
Mestre Bimba é fruto dessa época, e sua revolucionária proposta de codificação e sistematização da antiga Vadiação representa um esforço permanente que nós, brasileiros, empreendemos para lidar com tradições no contexto de uma modernidade tardia, inacabada e, sobretudo, excludente. 
Como capoeirista, o criador da Regional era, para mim, o tipo definitivo de Mestre: um grande lutador, uma figura maiúscula em seu contexto social e um vencedor em um cenário de grandes adversidades para a cultura negra e popular. Como sociólogo, Mestre Bimba representava, na minha percepção, um agente de mudanças em um cenário histórico que demandava figuras marcadas pela excepcionalidade, pelo carisma e pela capacidade de liderar grandes transformações.
De lá para cá, muitos outros assuntos ingressaram em minha agenda pessoal e profissional de pesquisa e de ensino. Penso que vivo aquela fase dos balanços, das avaliações do que foi feito. Satisfaço-me com a convicção de ter feito e continuar fazendo o esforço possível para entender melhor o funcionamento do chamado campo cultural. Principalmente, por ter certeza de que esse é um componente fundamental da construção de uma sociedade democrática, mais tolerante e inclusiva.
Sigo, até hoje, tentando lidar com essas inquietações. Trazer a análise dessas tensões e contradições para o campo das políticas públicas no campo cultural é um grande desafio. Felizmente, ano após ano, vemos a capoeira sendo estudada por pesquisadores sérios, com compromisso ético e munidos de uma visão plural e emancipadora de cultura.






Um comentário:

Eudes Fernandes Barros Melo disse...

Estou muito satisfeito por poder contar com seu relato para refletir o momento que estuou agora. Elaborando minha monografia da graduação em ciências sociais e me preparando para o mestrado, ambos relacionado a capoeira. Obrigado por partilhar essa experiência!